No horizonte se esconde

fevereiro 27th, 2012 § Deixe um comentário

No horizonte
se esconde
a diferença
entre Noé
e Caronte

Crônicos diálogos diacrônicos – I

fevereiro 23rd, 2012 § 4 Comentários

- Boa noite, doutor. Acho que estou com um problema grave.
- Bem, pode dizer.
- Meu coração tá batendo.
- Batendo diferente?
- Nao, só batendo.
- E ele não deveria bater?
- Acho que não porque eu morri.
- Como?
- É, eu morri e ele ainda bate.
- Quer dizer que você morreu…
- Sim, olha bem aqui, ó, na minha nuca.
- Que isso?
- É uma marca de bala.
- Vamos pra emergência já!
- Não adianta, eu morri. O coração é que cisma de bater.
- Não interessa, deita ali!
- Isso faz 4h, doutor…
- Deita logo!
- Ok…
- E não é que você morreu mesmo?
- Morrer é grave, né.
- Principalmente quando se vive, meu filho.
- E agora?
- Agora temos que fazer uns exames, sedar você, ver o que acontece.
De repente uma autópsia…
- Mas e o coração?
- Isso deve ser algum “delay”. Um atraso. De repente é tudo fruto da
sua cabeça ou até da minha. Vejamos o que acontece.
- Eu posso fazer uma ligação antes?
- Pode sim.
“Amor, oi? Eu acho que estraguei uma coisa sua, mas ainda tá funcionando um pouco…”

Post mortem (senryu)

fevereiro 13th, 2012 § Deixe um comentário

Vida post mortem
que o amanhã
é para ontem

Nem Jesus

fevereiro 7th, 2012 § 2 Comentários

Os erros
das igrejas
são tão mistos

que nem Jesus
perdoaria
certos Cristos

cri.atividade

janeiro 31st, 2012 § 2 Comentários

Criatividade
cria
atividade

que a ti, vá
cria
ativa

que ativa
idade
altiva

criar-te
verdade
criva

Microconto – XVIII

janeiro 19th, 2012 § 3 Comentários

E findou-se o sol da manhã. Agora é tarde.

Botero em exílio

janeiro 9th, 2012 § 6 Comentários

Aos magros,
tudo é
permitido

Permite-se o bafo
o feijão no dente
a cueca amarela
a camisa amarrotada
e até cabelo comprido
seja crespo ou liso
pois, aos magros
tudo é permitido

Permite-se a empáfia
a máfia
o mau humor
o fracasso
e o ócio
descabido
pois, aos magros
tudo é permitido

Permite-se o amor
o ódio
a melancolia
e a nostalgia
em vida
mesmo sem ter partido
pois, aos magros
tudo é permitido

Permite-se o excesso
a embriaguez
o prato cheio
a flatulência
e a opulência
de todo um vazio
pois, aos magros
tudo é permitido

Aos magros,
tudo é tão
permitido
que a vida
é mais
farta

Aos gordos
tudo é tão
proibido
que, quase
tudo é
vaca magra

Quem salvará?

janeiro 6th, 2012 § Deixe um comentário

Quem salvará
um louva-a-deus
ao deus-dará?

Não é à toa

dezembro 27th, 2011 § 2 Comentários

O futuro é o que não se pressente
o futuro é o horizonte fluido
O passado é a pegada feita
o passado é o tempo embutido
O presente é o que nos pertence
o presente é um presente incutido
Não é à toa que se é o que se sente
não é à toa que se é fluido

A vida é um cochilo curto
a vida ávida é breve
A morte é sono profundo
a morte é fogo na neve
a fala é um bafo fecundo
a fala é o barco da prece
Não é à toa que o transe é profundo
não é à toa que a transa é celeste

O voo é o passo do pássaro
o voo deixa Newton em riste
A asa é o orgulho de Ícaro
a asa é o fim do alpiste
O braço é a espada do fraco
o braço que, se torce, deixa quite
Não é à toa que todo membro é galho
não é à toa que o membro se aliste

Os pais são a febre do amor
o pai é a criança crescida
O filho é ser criador
o filho é o rei na barriga
Família é núcleo somador
família é entrada e saída
Não é à toa que tudo é andor
não é à toa que tudo é partilha

Deus é alho e bugalho
Deus é o algoz de Nietzsche
O diabo é coringa de baralho
o diabo é o poço de piche
O homem é o espalhafato
o homem pensa, logo existe
Não é à toa que todo à toa é falho
não é à toa que o à toa insiste

Prosa é poesia em andança
prosa é café no bule
Poesia é verbo que dança
poesia é vestido de tule
Música é lirismo em bonança
música é som que confabule
Não é à toa que o à toa se trança
Não é à toa que o à toa atue

Demissão

dezembro 20th, 2011 § 2 Comentários

As coisas pessoais que guardava em seu antigo escritório estavam todas dispostas em apenas uma caixa. Não queria levar muita coisa dali. Nada de lembranças. Lembranças, para ele, são meras bagagens daqueles que passaram pela sua administração. Também nada de levar os troféus ganhos pelos bons serviços prestados. Eles ainda estão dispostos na prateleiras, para que sirvam de recado para aquele que chegará em seu lugar, um aviso de que terá muito trabalho pela frente. Assim, pegou sua pequena caixa e saiu. Ao abrir a porta, viu todos os antigos subalternos dispostos em um corredor, batendo palmas. Muitas palmas. Mal se escutava a sua voz dizendo obrigado. Muitos choravam de emoção. Já o ex-chefe, seguia agradecendo e sem nem ao menos mudar a expressão.

Ao sair de vez do inferno, todos os demônios se perguntavam quem ocuparia o lugar de Lúcifer. Os rumores dizem que o posto será de um demônio muito mais novo e com um currículo invejável, mas que fará o mesmo trabalho ganhando bem menos.

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