Botero em exílio
janeiro 9th, 2012 § 5 Comentários
Aos magros,
tudo é
permitido
Permite-se o bafo
o feijão no dente
a cueca amarela
a camisa amarrotada
e até cabelo comprido
seja crespo ou liso
pois, aos magros
tudo é permitido
Permite-se a empáfia
a máfia
o mau humor
o fracasso
e o ócio
descabido
pois, aos magros
tudo é permitido
Permite-se o amor
o ódio
a melancolia
e a nostalgia
em vida
mesmo sem ter partido
pois, aos magros
tudo é permitido
Permite-se o excesso
a embriaguez
o prato cheio
a flatulência
e a opulência
de todo um vazio
pois, aos magros
tudo é permitido
Aos magros,
tudo é tão
permitido
que a vida
é mais
farta
Aos gordos
tudo é tão
proibido
que, quase
tudo é
vaca magra
Não é à toa
dezembro 27th, 2011 § 2 Comentários
O futuro é o que não se pressente
o futuro é o horizonte fluido
O passado é a pegada feita
o passado é o tempo embutido
O presente é o que nos pertence
o presente é um presente incutido
Não é à toa que se é o que se sente
não é à toa que se é fluido
A vida é um cochilo curto
a vida ávida é breve
A morte é sono profundo
a morte é fogo na neve
a fala é um bafo fecundo
a fala é o barco da prece
Não é à toa que o transe é profundo
não é à toa que a transa é celeste
O voo é o passo do pássaro
o voo deixa Newton em riste
A asa é o orgulho de Ícaro
a asa é o fim do alpiste
O braço é a espada do fraco
o braço que, se torce, deixa quite
Não é à toa que todo membro é galho
não é à toa que o membro se aliste
Os pais são a febre do amor
o pai é a criança crescida
O filho é ser criador
o filho é o rei na barriga
Família é núcleo somador
família é entrada e saída
Não é à toa que tudo é andor
não é à toa que tudo é partilha
Deus é alho e bugalho
Deus é o algoz de Nietzsche
O diabo é coringa de baralho
o diabo é o poço de piche
O homem é o espalhafato
o homem pensa, logo existe
Não é à toa que todo à toa é falho
não é à toa que o à toa insiste
Prosa é poesia em andança
prosa é café no bule
Poesia é verbo que dança
poesia é vestido de tule
Música é lirismo em bonança
música é som que confabule
Não é à toa que o à toa se trança
Não é à toa que o à toa atue
Demissão
dezembro 20th, 2011 § 1 Comentário
As coisas pessoais que guardava em seu antigo escritório estavam todas dispostas em apenas uma caixa. Não queria levar muita coisa dali. Nada de lembranças. Lembranças, para ele, são meras bagagens daqueles que passaram pela sua administração. Também nada de levar os troféus ganhos pelos bons serviços prestados. Eles ainda estão dispostos na prateleiras, para que sirvam de recado para aquele que chegará em seu lugar, um aviso de que terá muito trabalho pela frente. Assim, pegou sua pequena caixa e saiu. Ao abrir a porta, viu todos os antigos subalternos dispostos em um corredor, batendo palmas. Muitas palmas. Mal se escutava a sua voz dizendo obrigado. Muitos choravam de emoção. Já o ex-chefe, seguia agradecendo e sem nem ao menos mudar a expressão.
Ao sair de vez do inferno, todos os demônios se perguntavam quem ocuparia o lugar de Lúcifer. Os rumores dizem que o posto será de um demônio muito mais novo e com um currículo invejável, mas que fará o mesmo trabalho ganhando bem menos.
Mitose
dezembro 14th, 2011 § 1 Comentário
A tração
dezembro 1st, 2011 § 2 Comentários
Qual era a nossa intenção quando a música se tornou cada vez mais fluida até ser abafada pelos nossos cabelos? O que fazíamos antes do Kerouac ir ao chão e se manchar com o resto das garrafas vazias de vinho que rolaram? O que falávamos quando nos calamos a língua e começamos a rosnar no ritmo do abajur antigo de tom âmbar que também acabou por cair? O que pensávamos quando começamos a nos ler intensamente e nos desfolhar vorazes até que, aglutinados de forma irregular como verbos tortos de ligação, jorramos luz, leite e mel? O que nós éramos antes de tudo isso?
O que nunca mais seremos?
Que tudo
novembro 18th, 2011 § 4 Comentários
Primaveril – IV (senryu)
novembro 14th, 2011 § 1 Comentário
Madrugada quente
prévia de um verão
bem conivente



