Crônicos diálogos diacrônicos – IX
maio 22nd, 2012 § 1 Comentário
- Amor…
- Oi, amor…
- O que você está lendo?
- Sexus, do Henry Miller. Estava revendo Cabo do Medo, aquele do Scorsese, e me lembrei que tinha esse livro aqui pela casa em algum lugar. Deu vontade.
- Ahn. Nome interessante. Tem muita sacanagem?
- Eu não diria “sacanagem”, mas tem uns pedaços bem…eróticos…
- Por que homem gosta tanto de sacanagem?
- É complicado. O que é sacanagem para vocês, para a gente, é apenas arte…
- Não é isso, palhaço. Eu também gosto de uma sacanagem de vez em quando, você sabe. É que vocês veem direto, consomem toda hora, se masturbam quase todos os dias mesmo quando estão namorando…por quê?
- É um defeito de fábrica. Os testículos humanos correm o risco de explodir se não forem esvaziados periodicamente.
- Bobo…
- É sério, amor. Isso está em muitos livros de história da medicina. Os espermatozóides, quando ficam confinados por muito tempo, se tornam violentos e começam a agredir uns aos outros. Isso explica grande parte da nossa agressividade natural. Há alguns relatos médicos que dizem existir até canibalismo entre eles. Ao nos masturbarmos, nós liberamos esses pequenos gladiadores em potencial para seguirem livres e, de quebra, evitamos uma dolorosa explosão escrotal. A punheta preventiva é um gesto libertário e um instinto de sobrevivência primário antes mesmo do homem ser homem.
- Credo. Você pensou nisso tudo agora?
- Querida, essa é a minha monografia.
Errolução
maio 18th, 2012 § 1 Comentário
Nutro um carinho especial pelas palavras pomposas que aparecem grafadas de forma errada por aí. Aquelas que, mesmo nascidas em berço de ouro e que subitamente, por uma distração orquestrada pela providência, pela pura falta de ciência ou pela simples presunção de se fazer inteligente através de uma aristocracia verborrágica (como as gratuitas e recentes aclamações ao sobrenome mais famoso do filósofo alemão Friedrich Wilhelm), acabam desabando para a classe mais baixa da ortografia. Nessa nova realidade, essas exiladas se juntam à outras párias da comunicação que, mesmo ignoradas pelo cânone do dicionário, se tornam parte da massa febril que é entendida pelos mais humildes, assim, sonhando em também serem reconhecidas como linguagem. Ironicamente, é justamente nesta estância em que se perdem é que essas palavras se encontram.
A palavra pomposa, quando é grafada errada, cheguevara-se.
Grande Plínio
maio 8th, 2012 § 1 Comentário
Grande Plínio. Plínio era genial. Era só esperar que, plim, Plínio aparecia com uma novidade. Sempre foi o melhor da turma, pois aprendeu a ler sozinho com apenas um aninho. Aos três, Pliniozinho já dominava quatro línguas. Moleque incrível. Grande Plínio. Era só esperar que, plim, Plínio aparecia com uma novidade. Se formou no colegial aos dez anos assim ó, plim. Com 15, já era bacharel em Química e, aos 21, plim, estava concluindo o pós-doutorado. Plínio era genial. Grande Plínio. Era só esperar que, plim, Plínio aparecia com uma novidade. Descobriu a cura da Aids assim ó, plim. Logo depois, usando a si mesmo como cobaia, veio a cura do câncer. Grande Plínio. Plínio era genial. Era só esperar que, plim, Plínio aparecia com uma novidade. O terceiro Nobel veio aos 25 quando descobriu um substituto para o petróleo que poderia ser extraído da ureia. Foi honoris causa de mais de 20 universidades da Europa e dos Estados Unidos. Lecionava por toda a América Latina quando, plim, descobriu uma forma viável de acabar com a fome na África. Plínio era genial. Grande Plínio. Era só esperar que, plim, Plínio aparecia com uma novidade. Casou-se e divorciou-se sete vezes assim ó, plim. Teve nove filhos, mas nenhum teve coragem de entrar no apartamento aquele dia. O corpo de Plínio, gelado e sereno, em cima da cama. Ao seu lado, uma agulha e uma carta escrita à caneta: “amigos, já cumpri o que eu queria nesse mundo, agora vou lá ver o que tem do outro lado. A curiosidade me consome. Prometo voltar e contar como foi tudo, aguardem. Por favor, não chorem. Esta é só mais uma experiência científica”. Plínio era genial. Grande Plínio. Era só esperar que, plim, Plínio aparecia com uma novidade.
Crônicos diálogos diacrônicos – VIII
maio 4th, 2012 § 3 Comentários
- Me diga algo feliz.
- Algo feliz?
- Sim.
- Chocolate.
- Chocolate não é feliz…
- É sim, me deixa muito.
- Mas o chocolate, em si, não é feliz.
- Ah, mas tem um gosto que é.
- Mas isso não é ser feliz.
- Mas eu acho o gosto feliz.
- Você consegue explicar o gosto do chocolate? Quem consegue explicar o gosto do chocolate?
- Eu não quero explicar o gosto do chocolate, só estou falando que ele é feliz!
- Mas o chocolate, em si, não é feliz. Ele só te deixa feliz!
- Tá bom, tá bom!
- Então, me diga algo feliz.
- Doce de leite.
- Ai…
- Que foi?
- Tudo bem, doce de leite…
Líric(o)nírico
abril 26th, 2012 § 2 Comentários
Estive perto de ficar longe, mas resolvi me perder até me encontr(a)vestido entre uma espessa né(voa)r alto na frente dos anjos cá dentes e cada bater de asas parece mo(ver) os meridianos-luz cerca de sete graus pela órbita ocul(ar)pesado, as moléculas parecem de cimen(to) me sentindo microscopicamente intrauterino e onis(ciente) de que, para se dar a luz, é preciso parir a mãe. Não, chega de abstr(ações). Preciso de (arde) verdade. Quero abrir aquela cortina de carne que treme e abraça esse globo. Tento subi-la, mas ainda está muito vedada. Faço mais força, preciso da luz que vem detrás dela. Tenho medo de ficar aqui para sempre, sempre tive. Faço muita força, gasto todas as minhas energias. Vamos, abra. o sol já saiu. Abra, por favor. Eu prometo voltar uma dia. Isso, boa menina. A luz entra e me ilumina aos poucos. Em alguns segundos, o mundo se reconstrói na minha frente como uma marola que passa invertida e molda castelos de areia.
A cor dei.
Crônicos diálogos diacrônicos – VII
abril 18th, 2012 § 1 Comentário
- Senhor Edgar! Oi, senhor Edgar! Aqui tem mais uma pergunta…
- Sim, sim, só um instante. Alguém leva lá o microfone para a moça?
- Oi, aqui em cima…
- Pronto, espera, o microfone está indo.
- Ah, pronto. Oi, senhor Edgar…
- Só um instantinho, querida. Gente, como já estouramos o horário daqui do auditório, nós vamos abrir o debate só para mais duas pessoas e fechar a mesa, senão ninguém consegue almoçar hoje. De tarde, as mesas vão prosseguir normalmente, sim? Obrigado.
- Oi, tá me ouvindo?
- Ainda não, cola o microfone mais na boca.
- ASSIM?
- Opa, nem tanto! Pronto, assim, isso.
- Assim?
- Isso, querida, enfim.
- Posso falar?
- Gente, silêncio para a colega de vocês, por favor. Ninguém mais está no jardim de infância. Pronto, querida, pode falar.
- Oi, senhor Edgar. Eu gostaria de perguntar se, durante o processo da coleta de informações para a sua pesquisa, como é que o senhor, que vem de uma escola ideológica de esquerda, enxerga e encara a ascensão das melancias aqui no país.
- …como, querida?
- Gostaria de saber como é que o senhor enxerga a ascensão das melancias aqui no país.
- Ascensão das…melancias?
- Sim, dos movimentos meio melancia?
- Movimentos meio…melancia?
- Isso. Melancia.
- E o que seria isso?
- Então, os movimentos-melancia são os que unem a ideologia marxista atualizada na contemporaneidade ao viés ecológico que integra parte da base de alguns partidos políticos de origem social democrata.
- Ah, sim, então esses são movimentos chamados de “melancia” porque são verdes por fora e…
- …vermelhos por dentro.
- Ahn…
- Que foi?
- Acho que eu preciso de um copo d’água…
Continuum
abril 13th, 2012 § 3 Comentários
No calor de suas coxas entre as cobertas, seu dedo médio lhe pousa suave como pluma. A carícia lembra um oito deitado e o ato de se acessar a senha de um cofre forte, como se o resultado da ação fosse liberar um tesouro. Ofegante e umedecida, treme de chutar o criado-mudo e balbucia, sozinha no quarto, uma língua que anjos nada barrocos entendem. No aumentar a velocidade, a estrela que surge ao lado de sua visão percorre todo o seu corpo e implode sugando toda a energia que está a sua volta. Suspensa no ar em milhares de pedaços, ela, subitamente, mergulha dentro de um caleidoscópio e é puxada de volta ao molde original como em um bungee jump umbral, ficando suspensa no ar até explodir em uma nuvem de lantejoulas que caem no solo fecundo que dão vida a inúmeros clones seus, nus, que desabrocham de flores e cogumelos subatômicos. E as sensações não param nem em intensidade e fluxo. Ela precisa sair da cama, mas não consegue. O pânico nem sequer tem espaço para tomar as rédeas, pois o orgasmo entope todas as entradas para sensações novas. E assim as horas passam e ela desiste de tentar conter o incontível. Não há mais escapatória. Depois de um tempo, não sabia se o tempo havia parado ou se estaria passando em um ritmo incalculável. Também perdeu a noção da concretude à sua volta e começou a se sentir emanando energia. Será que, no fim, viraria luz? Astro? Cometa? Galáxia? Não sabia, mas tem toda a certeza de que está condenada a gozar para sempre.
Crônicos diálogos diacrônicos – VI
abril 7th, 2012 § 4 Comentários
- Cara, já te falei?
- O que?
- Me chamaram para um evento aí.
- Ahn.
- Ahn? Só isso?
- Você já falou isso umas três vezes essa semana. Agora come a janta.
- Você nem vai me perguntar que evento é esse? É um sarau, tá bom? Vou recitar as minhas poesias, enfim!
- Olha, a pizza tá esfriando…
- Te mostrei a última?
- Não, mas deixa pra depois que a gente…
- “Cerejinha craquelê / mestre Zambino / canta Paranauê / na sacada do morro / na vista, o socorro / de criança erê / subino e desceno / fúria do duodeno / que assina e não lê / ô larâ, ôlere / biscoitinho da sorte / comi um recorte / de papel machê / defequei um pacote / com risco de morte / e enviei pra você”
- Bacana, mas eu fiquei em “craquelê”. O que é isso?
- Bacana? Voce disse bacana?
- É, pô. Bacaninha…
- Você tinha que falar logo “bacana”?
- Ué, mas o que é que tem?
- Essa é a pior palavra do português, cara! “Bacana, bacana…” Puta merda…
- Ah, eu gosto!
- Ah, muito bacana você! Bacana! Bacaninha. “Amor, foi bom pra você?”, aí você vira e fala: “foi bacana…”, que ótimo, hein!
- Você tá muito chato hoje…
- Nada, eu estou bem bacana, hein! Super bacana! Mega Bacana! Bacanabacanabacana!
- Dá aqui. Eu vou guardar a sua fatia pra amanhã.
Crônicos diálogos diacrônicos – V
abril 1st, 2012 § 3 Comentários
- Sabe qual é o seu problema?
- Qual é?
- Você é inteligente demais.
- Hahaha! Me lisonjeio, mas isso é problema desde quando?
- Ah, é sim, cara…
- E por que? Assusto as pessoas?
- Exatamente.
- Creio que assustaria mais se fosse burro. Não sabia que era falha de personalidade demonstrar o que se sabe…
- O problema é que você é muito inteligente, daí as pessoas, principalmente as meninas, ficam com medo de conversar com você. É como agir com uma divindade, sei lá. Rola um distanciamento, sabe qual é?
- “Estou farto de semideuses”, já disse Pessoa. Entendi bem.
- Viu só? É disso mesmo que eu estou falando. Essas citações do nada, essa roupa engomadinha de quem vota em tucano, esses papos de leitor da Piauí, esse olhar de quem acabou de comer um sorvete de pistache…mulher odeia isso, cara.
- Então como você sugere que eu me porte perante este fardo que é a minha nababesca cornucópia de sabedoria?
- Você só precisa ser mais gente e aparentar isso. Vem cá. Tira essa gravata.
- Pra que?
- Não fala nada. Apenas tira e me dá.
- Toma, mas cuidado que…
- Agora aguarde…pronto.
- Seu doente! O que você está fazendo?
- É para o seu bem…
- Tira esse isqueiro daí! Apaga essa merda!
- Já era, cara. Lambeu. Fim.
- Era uma Armani, seu filho da puta!
- Tá vendo só? Eu te libertei, cara. Foda-se a merda da Armani! Gravata é coleira de pedante. Acabou!
- Porra, cara! Porra! Minha gravata, porra! E eu nem me sinto mais “gente”!
- Se já está falando palavrão, já demos o primeiro passo.


