Bestiário

Aquela estufa especial guardava a sua inestimada coleção de demônios já esquecidos pelo tempo e pela História. Todos se encontravam devidamente selados em potes de vidro. Durante toda a sua vida, ele teve o trabalho de caçar e encarcerar sozinho a maioria destes. Algumas vezes, mas só em raras exceções, ele tratou de negociá-los diretamente com seus donos. Sabia que a maioria dos proprietários eram muito apegados aos seus demônios interiores e só concordavam em repassá-los por um preço muito alto ou pela barganha de outro similar. No fim do dia, ele também cumpria um ritual quase que religioso: retirava os sapatos, acendia um charuto e ficava, de pé, admirando as espécimes roçando os vidros com as unhas, impassivos, desejando liberdade. Se sentia poderoso por isso. Ele se via, praticamente, como o paralelo de Pandora.

A fumaça que saía de sua boca sempre embaçava as paredes de vidro ao seu redor.

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5 respostas em “Bestiário

  1. Uau, que poder incrível ele tem nas mãos.
    Conto merecedor de continuação, sr. Latrão.
    Incrivelmente mórbido e intrigante :D

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