Luto azul

Chutou os sapatos lustrados para baixo do sofá, zuniu a gravata no xaxim, abriu seu vinho preferido e selecionou os discos de blues mais tristes que possui em sua coleção particular. Ali mesmo, em sua poltrona de estimação, começou a escutar apenas aqueles que, de tão soturnos, serviriam como um réquiem que espelhasse a sua profunda dor naquele momento. Uma garrafa e um baseado depois, começou até a achar as músicas alegres, como se estivesse com o plexo solar aberto  para captar a vibração que subverte a própria semântica daquelas melodias bemoladas e sorumbáticas. Assim, conseguiu achar a nanocentelha de esperança que existe no âmago de uma canção muito triste, uma vontade que só floresce quando o coração se racha ao meio e o conteúdo dos átrios e ventrículos adubam o solo interno que haverá de germinar no futuro. Assim, se levantou e dançou. E dançou muito. E dançou só. E dançou até ver luzes. E dançou até ficar tonto e ter ânsia de vômito. E dançou como se fosse a primeira e a última vez que estivesse dançando. E dançou como se o mundo tivesse deixado de existir.

E dançou como se ainda estivesse com ela.

Anúncios

4 respostas em “Luto azul

  1. Não é fácil lidar com a perda, e cada um se vira como pode.

    Ótimo texto, você sempre me proporcionando ótimas leituras para a minha madrugada (:

    Forte Abraço Frederico!

  2. Texto lindo demais! Curto e profundo.
    Cada um lida com a perda como pode. É algo que marca a gente pra sempre… A que fica são as lembranças que as pessoas deixam (e que nós deixamos nos que ficam).

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s