Crônicos diálogos diacrônicos – I

– Boa noite, doutor. Acho que estou com um problema grave.
– Bem, pode dizer.
– Meu coração tá batendo.
– Batendo diferente?
– Nao, só batendo.
– E ele não deveria bater?
– Acho que não porque eu morri.
– Como?
– É, eu morri e ele ainda bate.
– Quer dizer que você morreu…
– Sim, olha bem aqui, ó, na minha nuca.
– Que isso?
– É uma marca de bala.
– Vamos pra emergência já!
– Não adianta, eu morri. O coração é que cisma de bater.
– Não interessa, deita ali!
– Isso faz 4h, doutor…
– Deita logo!
– Ok…
– E não é que você morreu mesmo?
– Morrer é grave, né.
– Principalmente quando se vive, meu filho.
– E agora?
– Agora temos que fazer uns exames, sedar você, ver o que acontece.
De repente uma autópsia…
– Mas e o coração?
– Isso deve ser algum “delay”. Um atraso. De repente é tudo fruto da
sua cabeça ou até da minha. Vejamos o que acontece.
– Eu posso fazer uma ligação antes?
– Pode sim.
“Amor, oi? Eu acho que estraguei uma coisa sua, mas ainda tá funcionando um pouco…”

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5 respostas em “Crônicos diálogos diacrônicos – I

  1. Queria poder compartilhar todos os sentimentos que subitamente tomaram conta de mim ao ler esta crônica, porém nem me expressar coerentemente consigo mais. Lê-la, me deixou extasiada.

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