Crônicos diálogos diacrônicos – III

– Amor, acorda…

– Oi, lindo, que foi?

– Eu estava aqui pensando…

– Ai, mô, essa hora? Daqui a pouco clareia.

– Eu sei, mas se liga só. Já notou como “vestido” e “calçado” são palavras engraçadas?

– Engraçadas?

– Sim…

– E por que?

– Veja só, o vestido só faz sentido se estiver sendo usado.

– Que?

– É que vestido é algo feito para ser vestido assim como o calçado é algo feito para ser calçado.

– Então se um vestido não estiver vestido, ele não se é? Assim como um calçado não se seria se não estivesse sendo-se?

– Exatamente.

– E “comida”?

– O que é que tem?

– Ai, bobo. Se é assim, “comida” também é “engraçada”. Ela já é um passado mesmo que ainda não tenha sido consumida.

– Mas “comida” continua sendo “comida” mesmo não sendo comida.

– E namorada?

– Comida?

– Não, bobo. Digo, uma namorada sem ser namorada, ainda se é uma mesmo que não esteja sendo-se?

– Ih, não sei, mas me dá um beijo para garantir.

– Tá, agora dorme.

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2 respostas em “Crônicos diálogos diacrônicos – III

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