Crônicos diálogos diacrônicos – IV

– Desculpa, cara. Apaguei enquanto falava contigo. Me desculpa mesmo.

– Tudo bem. Dormiu mal?

– Muito mal. Tive um pesadelo medonho.

– Dormiu de barriga cheia?

– Pior que nem. Tipo, sonhei que estava tomando banho…

– Ahn.

– Aí tá, água caindo, sabonete esfregando as costas, aí eu senti uma coisinha…

– Coisinha?

– Isso, grudada na pele tipo uma verruga. Era um zíper.

– Zíper? Tipo de roupa?

– Isso. Aí eu apalpei, segurei e puxei. Cara…

– E o que aconteceu?

– Quando puxei, o zíper começou a abrir e a pele foi se dividindo, fiquei desesperado. Fiz uma abertura gigante, mas não senti dor nenhuma. Quanto mais eu tentava colocar de volta, mais ele saía. Aí resolvi puxar tudo.

– Loucura!

– Aí puxei, puxei, puxei e a minha pele se abriu em duas partes e saiu por inteira, como um pijama. Então, com aquilo caído no chão do box, percebi que aquela não era a minha pele de verdade. E eu estava por baixo dela o tempo todo!

– Cara!

– Sério. E eu era muito diferente na realidade, cara. Muito mesmo. É como se isso daqui que eu tenho fosse tudo falso.

– Que barra, hein! Mas você poderia anotar isso, cara. Ia dar uma história muito maneira.

– Será?

– Pô eu apoio, inclusive, eu…cara, que mancha é essa nas suas costas?

– Ah, é sangue. Tive de checar, né.

Anúncios

5 respostas em “Crônicos diálogos diacrônicos – IV

  1. Acho eu que todos nós temos um zíper. O que difere é a questão de cada qual ter caráter para abri-lo e mostrar quem se é, realmente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s