Crônicos diálogos diacrônicos – XVI

– E então, doutor?

– Meus parabéns, é um menino!

– Ok, doutor, legal, mas como o senhor pode ter certeza? Se ele ou ela quiser ser menino ou menina nesse mundo pós-gênero, é uma opção dele ou dela, não?

– Tudo bem, me desculpe. Meu parabéns, é uma criança!

– Doutor, eu não teria tanta certeza assim. Como pode categorizar o nascituro assim com distinções das fases da vida humana forjadas lá na pré-modernidade?

– Tudo bem, tudo bem. Meu parabéns pelo seu bebê!

– Bebê? Como o senhor pode ter a certeza disso? Quem sabe se eles possuem uma lógica própria de cognição que nós, meros adultos que nos distanciamos do universo do ventre materno, fomos perdendo conforme os anos foram passando e ficamos acostumados a viver órfãos de um útero? Quem nos garante que os chamados bebês não seriam os adultos do zigoto e, o seu nascimento, a sua morte?

– Ok, parabéns pelo seu indivíduo!

– Oi? Que indivíduo? Meu? Ele é uma propriedade minha? Aliás, esse indivíduo está inserido em uma sociedade por acaso? Ele já está atrelado ao seio das relações entre aqueles que acreditamos que sejam os seus iguais?

– Tá bom, tá bom! Parabéns pelo seu alguém!

– Alguém? Quem pode dizer que ele pensa e logo existe? Quem pode afirmar que…

– AI MEU CACETE! Vai ver o seu menino e vá plantar batatas, Seu Sócrates!

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