É como viver

Todo homem deveria, pelo menos, uma vez na vida, sair de casa com os botões da camisa colocados de forma errada. De propósito. Deixar o caminho desandar já de início, engolindo uma casinha do botão logo de cara. Sentir essa delícia que é errar uma e errar todas. É como viver. Há quem, por causa disso, nunca mais use camisas. É como viver.

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Refluxo

Engoli meus próprios versos na manhã de hoje e eles fermentaram em mim durante o dia. Quando chegou a noite, uma explosão percorreu-me o céu da boca da menina dos olhos e, antes que eu pudesse clamar por ajuda, caí de joelhos na grama do jardim e verti quente na terra como suor, sangue e gozo furta-cor. Logo, se ergueu um ser que tinha as minhas feições. Cambaleante e ofuscado com a luz do luar em meio à lama e à grama, ele me perguntou pelo sentido da vida. Só consegui sussurrar para que ele nunca procrastine um verso que seja.

Home office

Entre os livros com as página marcadas por outros livros, o cheiro de café. Os dois, ainda de pijamas, alimentam seus laptops. “A vez de fazer o jantar é minha”, ele lembrou. Meia louça lavada e uma lauda e meia pronta. O “meia” o incomodava, mas pararam para ceiar. Na sequência, vinho tinto, chocolate e volta ao batente. Já passou das 23 horas e eles ainda de pijamas. Ele observa que a luz da tela a deixa ainda mais bonita enquanto ela está parindo histórias que ganharão o mundo. Todos os que o cercavam juravam que os dois, um dia, iriam viver de arte. Mal sabem que estão vivendo com.

Rezista

Sonhei que trabalhava como rezista. Sim, isso mesmo. Nada de rezeiro ou rezadeiro. Rezista. O profissional especializado apenas na redação. Eu trabalhava no texto das rezas e orações. Era só me dar o tema a ser clamado que eu criava um texto objetivo para que Deus não deixasse as leituras de lado, lesse com preguiça ou rápido demais, na diagonal, e interpretasse errado.

Neste sonho, alguém entrou no meu escritório e  me perguntou se eu não me envergonhava em trabalhar para algo que não existe de fato e que enganava as pessoas com promessas vazias, cooptando-as não pela sua fé verdadeira, mas pelo seu puro medo de sofrer no futuro. Eu disse que não. Não tinha a mínima vergonha.

Eu ainda tinha fé no livre mercado.

Gênese giboso

Sabia que a Lua já foi Terra, meu amor? Sabia? Pois é, pasme. Assim como a Terra se formou de um pedaço da costela do Sol, parece que a Lua se formou depois que um pedaço da costela da Terra se desprendeu. O Arquiteto fez a Lua para que a Terra não se sentisse sozinha. Acho que eu li isso naquele livro grandão que aquelas pessoas de terno levam debaixo das axilas. Não sei se isso é verdade, amor, o livro é cheio de recortes estranhos. Parece que, no começo, era o Céu e a Lua. Depois, fez-se a Luz e a Lua se escondia dela, envergonhada. Pudera, era muito nova. Sim, amor, ela é linda. Como? Aquele ponto luminoso do lado? Não sei exatamente se é estrela ou planeta, mas com certeza é um fã.