Amor não é para qualquer dois.

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Curto rimas gastas e confortáveis como tênis velho. Rimas naturalmente puídas. Rimas easy going. Rimas quase ímãs. Quase irmãs. Rimas parceiras. Rimas pronto-socorro. Rimas angelicais. Rimas que irão para o Céu. Rimas que a gente sabe que pode contar para o que não der e vier.

Enciclopédia das inomináveis coisas flutuantes – 1

– Quando os únicos negros de algum lugar se cumprimentam mesmo sem se conhecer.
– Quando bate aquela culpa ao se sentir bem com cheiro de gasolina.
– Quando se tenta imaginar o ponto de vista das crianças e dos bichos, não exatamente nessa ordem.
– Quando você sabe que todos querem falar algo que todos sabem que todos querem falar, mas que ninguém diz sozinho para esperar que todos possam dizer ao mesmo tempo. É como um bingo ao contrário.
– Quando bate um vontade súbita de morrer apenas para observar o luto em sua volta ou, simplesmente, parar de ficar enxergando sempre o próprio nariz.
– Quando alguém que se conhece há anos ri ou chora exatamente da mesma forma que ri ou chorava na infância.
– Quando dá uma vontade irresistível de cair no choro ou no riso apenas porque sim. Ou talvez para se lembrar da própria infância.

Todo dia

Todo dia a gente se mata violentamente. Começa logo ao amanhecer. Enfiamos as unhas em nossas órbitas oculares e penetramos com a mão na cavidade até o antebraço. De lá arrancamos uma coisa frágil que a gente aperta até sufocar. Todo dia a gente oculta esse cadáver. Todo dia a gente remove corpos insepultos de nós. Todo dia. Tudo sempre na chance de, lá na frente, a gente se parir de novo.

Fanônicas – V

Tenho em mim todos os negros do mundo

O orixá que há em mim pode ou não saudar o orixá que há em ti

O que seriam os astros comparados ao manto negro que tudo permeia?

Assim tenho em mim todos os negros do mundo

Quando me ignoram, é para calar todos os negros do mundo

Quando me prendem, é para acorrentar todos os negros do mundo

Quando me batem, é para castigar todos os negros do mundo

Quando me matam, é para exterminar todos os negros do mundo

É tentando sumir comigo, como tentam sumir com todos os negros do mundo, que, um a um, em cada recanto de nossas ruas, lugares, músicas, culinária, fala, gestual, reza e vestuário que transparecem eles, todos eles, todos os negros do mundo.