É como viver

Todo homem deveria, pelo menos, uma vez na vida, sair de casa com os botões da camisa colocados de forma errada. De propósito. Deixar o caminho desandar já de início, engolindo uma casinha do botão logo de cara. Sentir essa delícia que é errar uma e errar todas. É como viver. Há quem, por causa disso, nunca mais use camisas. É como viver.

Necrópole eu

Não me machuque, sou o pior dos seres. Mato gente todo dia e da pior forma possível. Mato com requintes de crueldade. Mato, esquartejo e picoto os órgãos. Mato, bebo o sangue e taco sal na terra. Mato para mim. Mato dentro de mim. E cá sigo, com cadáveres e restos mortais em meu peito. Enquanto isso, eles seguem penados e sem saber que morreram. Insepultos, frios e sem Antígonas para lhes prestar dignidade. Minha boca não é um túmulo, mas exala o hálito pútrido das dores não desapegadas. Prazer, meu nome é Rancor.

Valsa do fuzis travados

A morte do amor no juízo ilegal

pela boca do incauto

que engole verdades para obrar regra

 

A vida matável do homem boçal

é o escarro do carrasco

a vinda do tapa que a face nega

 

Até ser imune

à violência que nos une

 

Renegar o posto de rei e senhor

de candidatos nada cândidos

de pistola na mão como cetro real

 

Não sentir pele, pena e dor

tolerância nem asco

de homens de bens pelo império do maus

 

Até ser imune

à violência que nos une

Que a carne é faca