Fanônicas – III

A poesia negra requer um trabalho especial

primeiro, é preciso que o poeta tenha pele preta

depois, é preciso que este crie poemas

assim nasce a poesia negra

Anúncios

Cada Eu Te Amo

Cada Eu Te Amo que recebemos é uma flor que desabrocha no coração das borboletas na barriga de uma estrela que toca a ponta da seta de Cupido. Cada Eu Te Amo que falamos é uma catapulta para que os sapos engolidos cheguem ao céu nublado de nossa boca do estômago. Cada Eu Te Amo pode ser uma poesia, mas só

se

você

quis

ser

A favela desceu

“A favela desceu!”
“A favela desceu!”
Fala ela
nada afável
em vê-la

Agora vai
e fala
pra donzela:
“Querida,
sem trela
que todo dia
a favela
desce
à vera”

Ela desce e sobe,
desce e sobe
e até
quebra
de ladinho
do batidão do funk
ao dos ôme

E balas perdidas
acham corpos
e o que
requebrava
quebra
vaza
e mela

“O sangue desceu!”
“O sangue desceu!”

Agora vai
e fala
pra ela:
“Querida,
todo dia
o sangue
desce
à vera”

Sobre as rimas

Mal sabem
que rimas
são ímãs
de irmãs
não univitelinas

Para artistas
não racistas
negras e brancas
são todas
sisters
[ai que cafona
rima anglófona!]

Fáceis ou difíceis
apostos
à postos
rebuscadas
meretrizes
para todos
os gostos
e [livros de]
bolsos

E corre a lebre
pela fase
passa febre
por um triz
péla a frase
lerda à beça
e diz, feliz:
“Que merda
é essa
que eu fiz?”

Amicus

DSC03070

Ter um amigo
é ter
abrigo

a rima fácil
é bem
sincera

em uma vida
que tanto se
espera

e que nos
deixa como
recém-nascido

que perde o mundo
que chega do
umbigo

mas a parceria
já de longa
data

a qual da
solidão
arrebata

é o cometa
o qual rastro
seguimos

nos mostrando
de onde
partimos